
Por um instante, imagine que sua filha precise de um transplante de medula óssea e não se encontre um órgão compativél, que a menopausa de sua mulher a tenha deixado infértil, ou que seu filho de 5 anos tenha se afogado e você não consiga superar o fato de que ele se foi para sempre. Nesses casos, seria fácil desprezar a notícia de que em todo mundo cientistas vêm tentando duplicar o ser humano, empregando a mesma tecnologia que há seis anos permitiu aos escoceses clonar a ovelha DOLLY?
Bastou a primeira manchete sobre o nascimento do animal e os especialistas em fertilidade começaram a ouvir todos os dias as perguntas do tipo: Nossa filha de 2 anos morreu em um acidente de carro; guardamos uma mecha do cabelo dela. É possivél cloná-la? Por que a lei concede ás pessoas mais liberdade para destruir fetos do que para criá-los? Meu marido teve câncer e é estéril. Vocês podem nos ajudar?
E alguns cientistas estão dispostos a responder "sim, podemos". Em Janeiro de 2001, Panayiotis Zavos, especialista em infertilidade de Centro de Medicina Reprodutiva e Fertilização in Vitro de Kentucky, anunciou que está formando, ao lado de outro pesquisador, um consórcio para produzir o primeiro clone humano. Cientistas da Coréia do Sul alegam já ter criado um embrião humano clonado, embora o tenham destruído. E recentes matérias de capa de revistas acompanharam os esforços da seita dos raelianos, um grupo religioso empenhado, entre outros objetivos, em receber os primeiros extraterrestres que aparecerem na Terra. Os raelianos pretendem clonar as células de um menino morto aos 10 meses de idade, cujo os pais esperam trazê-lo de volta á vida. Afirmam dispor de cientistas e de uma fila de 50 mulheres prontas a carrega o bebê clonado no ventre.
O mecanismo não é difícil: pega-se o óvulo de uma doadora, tira-se o núcleo- portanto, o DNA- e junta-se a ele uma célula da pele, por exemplo, da pessoa a ser reproduzida. Em seguida, com o auxílio de uma corrente elétrica, a célula reconstituída tem possibilidade de se transformar em sua cópia genética. "É inevitável que alguém tente isso e acabe conseguindo" diz a especialista em infertilidade Dolores Lamb, do Baylor College of Medicine, em Houston. Muito biotecnólogos concordam que, dentro de pouco tempo, estaremos lendo a notícia do nascimento do primeiro clone humano. Quando isso acontecer, o significado do que é ser humano- que agora sempre envolveu a misteriosa combinação do DNA de duas pessoas- vai mudar para sempre. E a discussão que há anos preocupa os especialistas em ética - sobre até que ponto o homem pode interferir na natureza, quando o assunto é reporodução- vai estar presente em toda mesa de jantar e bancada política.
Isso deixa muitos cientistas assustados. O perigo não se limita a bebês nascidos com deformações, como acontece com muitos clones animais, ou a casais desesperados que podem alimentar esperanças e depois se decepcionar. O perigo imediato é a realização á ciência oportunista, que pode prejudicar a ciência responsável, comprometendo as chances de se encontrar a cura de enfermidades como a doença de Alzheimer, o mal de Parkinson, o câncer e as cardiopatas.
No entanto, a clonagem é um assunto tão desconcertante que acabamos por invejar os dois extremistas nos dois lados da briga. Para a igreja Católica, é uma questão de visão de mundo: se a vida é uma dádiva do amor ou apenas um produto industrial, um pouco mais valioso que os demais. Do outro lado da discussão, temos os libertários que não gostam que os politicos, religiosos ou conselhos de ética interfiram no que acreditam ser decisões individuais. A reprodução é um jogo de azar; na visão deles, a clonagem nos permite proteger nossas apostas. Em relação aos casais inféreis, Zavos, o aspirante a criador de clones, afirma: "Queremos dar as pessoas o dom da vida. Ética é uma palavra maravilhosa, mas aqui precisamos ver além dessa questão. Não se trata de ética, e sim de uma questão médica. Algumas pessoas precisam disso para completar o ciclo da vida, para se reproduzirem."
No meio disso tudo, fica a maioria das pessoas, que encara a situação com um vago receio, a sensação incômoda de que a ciência está nos arrastando para uma floresta sombria sem caminho de volta.
Este texto foi extraído da Revista Seleções da Reader's Digest e escrito por Nancy Gibbs Da Time.
Publiquei apenas uma metade do texto, logo mais publicarei a próxima parte. Escolhi este tema por ser bem polêmico e causar grande discussão, visto que cada um tem sua opinião sobre clonagem. E você, o que pensa sobre esse assunto?
Rebeca.
